Capítulo II – O Amargo.

Paty precisava de uma fuga. Não gostava de beber. Não fumava. Assistia a filmes de comédia romântica e sempre chorava nas partes mais tolas – as partes que acontecem em todos os filmes do gênero. Não tinha ídolos. Admirava Bridget Jones. Quando saiu da faculdade e conseguiu a carteira da OAB, comprou um notebook Acer Ferrari 3400, porque amava vermelho. Era a cor que queria usar nas unhas, e nos lábios. Era a cor do seu Audi TT. Era a cor dos seus inseparáveis scarpins italianos.

Patrícia estava deixando Paty para trás; que existia apenas em horário comercial e terminara a faculdade havia três meses; que vai trabalhar de Renault Clio Preto (1.0), usava apenas um gloss nos lábios e pouquíssima sombra nos olhos e bastava.

O primeiro passo foi criar um e-mail falso. Pensou em um pseudônimo durante 15 minutos, enquanto tentava aprender a tragar um cigarro – Camel, tirado de uma carteira lacrada, que alguém a quem tinha dado carona deixara cair no piso do carro – e servia a primeira dose de Absolut Vodka Mandarin, que pedira no serviço de bar do flat em que morava.

Vênus foi o nome escolhido por ela. E o motivo não é por ter sido a deusa romana do amor e da beleza, mas por Afrodite, sua equivalência na mitologia grega, ter sido casada com Hefesto, deus do fogo – elemento natural que ela mais amava –, e por tê-lo traído várias vezes. Para ela, Hefesto era Carlos, seu pai, e seu amante era Gerardo, seu irmão. Tentando buscar um anagrama pro seu novo nome, enquanto já fumava o segundo cigarro, chegou a Nevus e gostou. Decidiu por intitular-se Neve, mas soava falso demais. “Que fique Branca, então”, sussurrou sozinha, iluminada apelas por um abajur de lâmpada amarela e pela tela do notebook. Cinco minutos depois mais uma tabagista beberrona nascia e, junto, uma personagem que ela viu-se na necessidade de criar.

Às 10 horas manhã, sem ressaca, mas com um gosto ruim na boca e uma leve rouquidão por conta dos 20 cigarros que fumara durante a madrugada, Patrícia ligou para uma de suas clientes, uma Delegada não muito ética do departamento de Defraudações, casada com o diretor do Detran-CE, para confirmar a visita que faria na tarde daquela terça-feira chuvosa de março. Tudo confirmado; voltou a dormir.

Três da tarde chegou à casa da cliente e fez uma venda de R$ 7.000,00. Foram três óculos de sol italianos e dois colares, um de ouro e outro de pérolas. Quando estava pronta para voltar pro seu apartamento, pela primeira vez nesses anos todos, Paty chorou. Era um choro pesado, mas não de saudade da família, e sim de desespero, de cansaço e ansiedade.

Naquele momento a Delegada Gerusa tentou confortá-la, dando um abraço e dizendo:

- Minha filha, nós já nos conhecemos há tanto tempo, logo você será minha colega ou até juíza. Por que não podemos ser amigas e você confiar em mim?

Era tudo o que ela queria e precisava ouvir para dar continuidade ao seu plano de parir Branca. Ali, depois de oito anos, se abriu com alguém, dizendo tudo o que tinha acontecido em sua vida e fez um pedido, entre lágrimas:

- Eu preciso fugir de mim, Gê. Eu preciso de uma identidade nova. O que eu precisaria fazer pra conseguir isso? Queimar minha certidão de nascimento, CPF e Identidade? Eu pagaria o quanto fosse necessário para isso. (Soluçou).

Patrícia saiu de lá com a promessa de que uma semana mais tarde receberia uma nova CNH, além de um cartão de CPF e outro RG.

Passou no Free Shop do Parque Recreio, comprou cinco pacotes de 10 carteiras de Camel e oito litros de vodca: dois de Absolut Mandarin, dois de Level, dois de Belvedere e dois de Grey Goose. Descobrira que não vodca não dá ressaca ou mau hálito. Foi pra casa.

Branca criou uma conta em um site de relacionamento e logo foi entrando em comunidades com as quais se identificava; 80% delas narcisistas, 20% fúteis. Ela sabia que estava abrindo espaço para uma puta. O objetivo dela, aos 23 anos, era ter a vida que teve entre seus 15 e 18 anos. Sexo todos os dias, quase, sem prazer, sem emoção, sem respeito. Apenas sexo. Sentir um desconhecido a possuindo do jeito que bem quisesse. Pedindo pra realizar as fantasias mais sacanas. Por mais que não tivesse feito com prazer, sabia de posições e coisas que os homens gostam. Ela ouvia seu pai mandar sua mãe fazer o que ele gostava. Ela chegou a ver também, quando seu irmão a mostrou em vídeo. Ela chegou a fazer também, com seu irmão e um amigo.

Continua…?

Publicado em: on 30 Outubro 2007 at 11:12 pm Comentários (5)
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5 Comentários Leave a comment.

  1. Continuuuuuuuuuua….

    :***

  2. Bora Zeh…continua!

  3. nossa…
    oO

  4. oO

    Caraaca cara!
    Coitada da Patrícia….

    Continua o conto hein…
    ^^

    Beijoooss!
    http://tobecontinueed.wordpress.com

    Ps: Tá nos links também!
    Kissu!

    ;)

  5. Continua! Continua! Tanananan
    Patrícia o caralho, meu nome agora é Branca! hahaha
    Muito bom!
    Beijos.
    Ps: vc tinha q arrumar um lugar pras pérolas, hein?! hahaha


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